Do curtailment à inteligência artificial: Brasil Equatorial pode virar plataforma global de energia limpa para data centers

No Google PowerUp 2026, Jean-Paul Prates defendeu que o avanço da IA exigirá energia limpa, governança, infraestrutura e ROI mensurável, e que o Brasil Equatorial reúne condições únicas para atrair data centers e transformar excedentes renováveis em desenvolvimento.


O ex-senador, ex-presidente da Petrobras e Chairman do CERNE, Jean-Paul Prates, participou nesta terça-feira do Google PowerUp 2026, evento promovido pelo Google Cloud para lideranças dos setores de energia, utilidades, recursos naturais, tecnologia, dados e inteligência artificial.

Em sua participação, Prates destacou que a inteligência artificial não deve ser compreendida apenas como uma agenda tecnológica, mas como uma nova fronteira energética, industrial e territorial. Segundo ele, a expansão acelerada da IA, da computação em nuvem e dos data centers recoloca a energia elétrica no centro da competitividade global.

“A pergunta que começa a se impor no mundo não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer, mas quanto custa rodar tudo isso em escala, com confiabilidade, governança, energia limpa e retorno real sobre o investimento”, afirmou.

Prates chamou atenção para o fato de que a primeira fase da IA generativa foi marcada por demonstrações de capacidade, enquanto a próxima etapa será definida por eficiência, confiabilidade, governança e custo operacional. Ele observou que muitas empresas estão descobrindo custos ocultos na adoção massiva da IA, incluindo consumo computacional, licenças, energia, supervisão humana, auditoria de respostas, correção de erros, segurança de dados e aderência a valores corporativos.

“Não está em questão a relevância da IA. A tecnologia é transformadora. O que está em questão é o modelo de implantação. ROI, governança, energia, sustentabilidade, logística, água, latência, segurança e impacto territorial precisam entrar no cálculo desde o início”, afirmou.

Nesse contexto, Prates apresentou o conceito de que data centers podem se tornar o “downstream da energia renovável”. Para ele, o Brasil vive um paradoxo: possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e, ao mesmo tempo, desperdiça volumes expressivos de geração renovável por gargalos de transmissão, operação e planejamento.

“O que hoje aparece como problema para o setor elétrico pode ser convertido em vantagem para a economia digital. O curtailment de eólicas e solares precisa deixar de ser apenas perda sistêmica e pode se transformar em capacidade computacional, investimento, emprego qualificado e desenvolvimento regional”, defendeu.

Prates ressaltou que o Brasil Equatorial, compreendido como a faixa estratégica que abrange o Nordeste setentrional e o Norte oriental do país, possui atributos raros para atrair data centers: energia renovável abundante, disponibilidade imediata de geração, grande potencial de expansão, áreas para instalação de campi digitais, proximidade relativa com cabos submarinos, posição atlântica favorável e possibilidade de conexão próxima aos pontos de geração.

Segundo ele, a solução não está apenas em construir novas linhas de transmissão, embora elas continuem necessárias, mas também em atrair cargas estratégicas para onde a energia limpa já existe.

“Durante décadas, a lógica foi gerar energia no Nordeste e escoar para longe. Agora precisamos também inverter a pergunta: que indústrias, serviços e infraestruturas digitais podem vir para onde a energia limpa já está disponível?”, disse.

O ex-presidente da Petrobras também abordou as críticas frequentes ao uso de água por data centers. Para ele, a preocupação é legítima, mas deve ser enfrentada tecnicamente, com circuitos fechados, água de reúso, resfriamento líquido, sistemas de imersão, métricas públicas de eficiência hídrica e licenciamento ambiental transparente.

“A água precisa entrar no projeto desde o primeiro dia. Não como nota de rodapé ambiental, mas como critério de localização, tecnologia e licença social”, afirmou.

Outro ponto tratado foi a latência. Prates observou que nem todas as cargas digitais precisam estar fisicamente próximas do Sudeste brasileiro. Aplicações críticas e de baixa latência podem permanecer próximas aos grandes centros de consumo, mas cargas de IA, treinamento de modelos, armazenamento, analytics, backup, renderização e processamento assíncrono podem ser instaladas em regiões com maior vantagem energética.

“A pergunta correta não é se todo data center pode ficar no Nordeste. A pergunta correta é quais cargas digitais podem ficar no Brasil Equatorial com vantagem econômica, energética, climática e estratégica. E a resposta é: muitas”, afirmou.

Prates defendeu ainda que o país deve evitar uma corrida desordenada por data centers baseada apenas em incentivos fiscais ou disponibilidade de terrenos. Para ele, o Brasil precisa oferecer uma proposta de valor completa, com energia limpa contratável, conexão viável, licenciamento previsível, solução hídrica, fibra redundante, mão de obra qualificada e governança.

“O produto não é o hectare. O produto é energia limpa, preço competitivo, previsibilidade, conexão, água resolvida, licenciamento, segurança, talento local e capacidade de expansão”, resumiu.

Como encaminhamento prático, Prates destacou o papel da Comissão Intersetorial de Energia para Dados do CERNE, já estruturada para tratar da convergência entre energia renovável, infraestrutura digital e desenvolvimento regional. Segundo ele, a comissão pode funcionar como plataforma de articulação entre geradores, hyperscalers, operadores de data centers, empresas de fibra, universidades, governos, reguladores e financiadores.

“O Brasil Equatorial não parte do zero. Já existe no CERNE uma Comissão Intersetorial de Energia para Dados. O próximo passo é dar escala, método e interlocução nacional e internacional a essa agenda”, afirmou.

Ao final, Prates defendeu que o Brasil deve transformar sua vantagem energética em política industrial para a inteligência artificial.

“A IA continuará avançando, mas a euforia dará lugar à contabilidade. A conta da energia, da água, dos tokens, da auditoria e da infraestrutura vai separar projetos sólidos de projetos apenas promocionais. O Brasil Equatorial tem uma janela estratégica: transformar energia limpa disponível em plataforma territorial da inteligência artificial global”, concluiu.

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