Ventos que trazem empregos

Energia eólica deve gerar mais de 200 mil empregos no Brasil até 2026. Estudo inédito da ABDI lista 52 carreiras que compõem o setor.

O Brasil desponta como um dos países com maior matriz enérgica limpa do planeta. Enquanto no mundo apenas 33% da matriz é renovável, aqui o índice passa de 80%. Mesmo com o número já elevado, o potencial de crescimento no país salta aos olhos. Segundo um estudo da International Energy Agency, o Brasil foi o quinto país com maior incremento de gigawatts (GW) gerados pelo vento em 2016. No ano passado, foram instalados mais 2,02 GW (dados da Associação Brasileira de Energia Eólica — ABEEólica). Atualmente, os ventos respondem por 8,2% de toda a energia gerada. A capacidade instalada chegou a 13 GW no início de 2018. Isso abastece, por exemplo, seis de cada dez casas da região Nordeste. O Ministério de Minas e Energia prevê uma expansão de 125% até 2026, quando praticamente um terço da energia brasileira virá dos ventos (28,6%).

Além de garantir luz acesa, os ventos também representam renda às famílias de muitos estados. Em 2016, o número de empregos diretos no setor passava de 150 mil. A ABEEólica estima que para cada novo megawatt instalado, 15 empregos diretos e indiretos sejam criados. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) estima que até 2026 a cadeia eólica possa gerar aproximadamente 200 mil novos empregos diretos e indiretos. É como se metade da população de Florianópolis, capital de Santa Catarina, estivesse trabalhando no setor.

A Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) aponta que o setor tem espaço para crescer. Segundo o diretor técnico da Abeeólica, Sandro Yamamoto, o país tem um dos melhores ventos do mundo. Apenas o potencial eólico da Bahia teria condições de suprir a necessidade de energia do Brasil inteiro. “O vento é constante o que não estressa a máquina, caindo o custo de manutenção. Por isso, as maiores fabricantes do setor estão no Brasil”.

Outro ponto positivo é a o espaço de crescimento. O Brasil tem apenas 13 gigawatts instalados, isso ainda é pouco. “Se pensarmos em instalar de dois a três GW por ano, ainda instalaremos parques por mais quatro décadas”. O diretor da Abeeólica ainda aponta que muitos empregos são gerados na fase de construção. “Depois que o parque está pronto o número de trabalhadores diminui. Isso é normal, porque para a manutenção e operação a demanda de pessoal é menor”, relata. Mas o setor não se resume a estás áreas.

Um estudo inédito da ABDI mapeou 52 profissões/ocupações distribuídas nos cinco grupos de atividades que compõem a cadeia: construção e montagem (10 diferentes profissões); desenvolvimento de projetos (11 profissões); ensino e pesquisa (6 profissões); manufatura (15 profissões); operação e manutenção do parque eólico (9 profissões).

O presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Guto Ferreira, explica que o potencial de criação de empregos é grande porque a cadeia eólica é longa, além do potencial de crescimento do mercado. “São cinco etapas envolvidas na cadeia, desde o desenvolvimento do projeto, a fabricação, a montagem e operação de um parque eólico. Para cada fase é preciso uma ampla gama de profissionais. Na fase de projeto, por exemplo, são necessários pelo menos 11 tipos de profissionais. Entre manufatura, construção e operação são mais 34 especializações diferentes”, destaca.

FASES DA CADEIA

Construção e montagem — 10 profissões
Desenvolvimento de projetos — 11 profissões
Ensino e pesquisa — 6 profissões
Manufatura ­– 15 profissões
Operação e manutenção — 9 profissões

Segundo o estudo da ABDI, existem carreiras para todos os graus de formação. “A cadeia eólica precisa de profissionais que tenham apenas o ensino médio e fundamental, como é o caso de montadores e motoristas, mas contempla também os altos graus de formação, como engenheiros aeroespaciais, onde a pós-graduação e especialização são pré-requisitos para a contratação”, explica Ferreira.

O documento da ABDI mostra ainda as possibilidades de crescimento do profissional dentro do setor. Uma profissão que chama a atenção no estudo é o técnico em meteorologia, exigido em três das cinco fases da cadeia — montagem, desenvolvimento do projeto e operação. A formação dura em média três semestres (1200 horas) e o salário estimado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) é de R$ 2 mil. O técnico vai atuar no levantamento de dados sobre a velocidade e direção dos ventos, realizando a instalação e a manutenção das torres de medição (chamadas de anemométricas). Pelo estudo, esse tipo de profissional pode progredir no setor e se tornar Técnico em Operações e Manutenção de Parques, aumentando, assim, seu rendimento.

Já para os salários mais altos são necessários diferentes profissionais do ramo da engenharia. Os ganhos médios mensais dos engenheiros aeroespaciais passam de R$ 8 mil. Para o engenheiro de vendas, o mercado oferece vencimentos próximos a R$ 15 mil. Somente para a fase de manutenção, permanente depois que o parque eólico está instalado, são contratados profissionais com formação em sete engenharias diferentes (engenheiro de produção, industrial, de qualidade, de vendas, eletricista e projetista). Os salários giram entre R$ 5 e R$ 15 mil. Na mesma faixa também existem vagas para advogados, administradores e biólogos.

O engenheiro Edson Zaparoli trabalha com a prospecção de novas áreas e é considerado um dos profissionais mais experientes do Brasil no tema. Ele coordena a área de projetos da Casa dos Ventos — empresa especializada na energia vinda dos ventos. “É difícil encontrar engenheiros prontos para comandar grandes projetos. Aqui na empresa nós formamos os profissionais. Para a contratação temos a preocupação com a grade curricular da escola de formação do candidato”. A preferência é por engenheiros que estudaram em instituições que deem maior peso as matérias relativas a escoamento de fluídos. “Depois de aproximadamente dois anos na empresa, o engenheiro já tem condições de coordenar um projeto”, explica Zaparoli.

O engenheiro aeronáutico, Leonardo Soares, de 31 anos, entrou na Casa dos Ventos há seis anos. Atualmente, ele é gerente de operação e manutenção da empresa. “Eu me formei no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Comecei trabalhando com manutenção de aeronaves, depois de dois anos recebi o convite para trabalhar com energia eólica”. Quando Soares começou, a energia vinda dos ventos ainda era um setor incipiente. “Tinha muitos colegas de faculdade trabalhando com a área de petróleo, que é um setor mais tradicional. A proposta salarial que recebi equivalia e tinha oportunidade de crescimento, porque a maioria dos empregados na área eram jovens. Hoje, percebo que realmente foi uma decisão acertada”, destaca.

Profissões do futuro

O relatório da ABDI chama a atenção para profissões do futuro, cada vez mais exigidas pelo mercado de trabalho eólico. O próprio técnico em meteorologia é um trabalhador que terá demanda crescente. “Com o maior número de parques de energia eólica e solar, existe um novo mercado que se abre”, diz o presidente da ABDI. O tecnólogo em meio ambiente, por exemplo, é uma profissão em alta. “Esse tipo de profissional tem um papel fundamental na expansão das energias renováveis. Nos parques eólicos, os técnicos de meio ambiente são responsáveis pelo monitoramento ambiental da fauna. É muito comum a morte de aves e morcegos por colisão com as pás das torres eólicas”.

O técnico em meio ambiente tem um salário médio de R$ 2,5 mil, segundo a FIPE. Para exercer a profissão, é preciso formação em engenharia ambiental ou curso técnico na área. Segundo o estudo da ABDI, esses profissionais podem progredir para a posição de engenheiro ambiental ou consultor ambiental, onde os salários beiram os R$ 7 mil.

Onde estão os empregos

A maioria dos parques eólicos do Brasil está no Nordeste. O Rio Grande do Norte e a Bahia lideram o ranking com 135 e 93 parques, respectivamente. Outros sete estados da região concentram 184 parques de torres eólicas. O Sul também apresenta parte considerável da geração. Na região estão 95 parques, sendo a maioria no Rio Grande do Sul (80).

Isso não significa que os empregos estejam somente nessas regiões. “Uma torre instalada no Rio Grande do Norte gera empregos mais perenes para a população local, na fase de operação e manutenção. Entretanto, o desenvolvimento do projeto pode ocorrer em um escritório em São Paulo, e os componentes das torres são construídos em Pernambuco, Minas Gerais e Santa Catarina”. Guto Ferreira também explica que durante a construção são geradas muitas vagas temporárias, empregando locais e pessoas de outras regiões.

A cadeia eólica não para por aí. A ABDI mapeou mais de 400 empresas envolvidas, entre fabricantes, fornecedoras de peças e prestadoras de serviço. Os construtores de pás exemplificam a capilaridade das indústrias que trabalham com vento. São apenas quatro no Brasil, mas em estados diferentes — Ceará, Pernambuco, Bahia e São Paulo.

Fonte: Fernando Rotta

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