Posts

5 tendências em energia renovável para ficar de olho

Redução dos custos das baterias é a grande tendência de longo prazo, segundo relatório anual da Bloomberg New Energy Finance

A queda nos custos de baterias para armazenamento de energia e seu uso proliferado devem pavimentar o caminho para um futuro de geração mais limpa, segundo relatório anual da Bloomberg New Energy Finance divulgado nesta semana, o New Energy Outlook (NEO).

Para atender às mudanças na demanda e no suprimento, o estudo prevê que o investimento global no aumento da capacidade de baterias chegará a US$ 548 bilhões até 2050.

O relatório mostra ainda que as fontes eólica e solar devem representar 50% da geração mundial até meados do século. Ao mesmo tempo, o poluente carvão deve encolher para apenas 11% da geração global de eletricidade no mesmo período.

Confira a seguir as tendências que prometem sacudir o tabuleiro energético mundial nos próximos anos, segundo o estudo da BNEF.

Baterias

A BNEF prevê que os preços da bateria de íon-lítio, que já caíram cerca de 80% por megawatt-hora desde 2010, continuarão a cair à medida que a produção de veículos elétricos aumente ao longo dos anos 2020.

O estudo estima que US$ 548 bilhões sejam investidos em baterias até 2050, dois terços disso conectados à rede e um terço instalado em residências e empresas.

Geração de baixo carbono

O mix de eólica e solar deverá representar quase 50% da geração de energia mundial até 2050 devido à redução drástica de custos dessas tecnologias e ao advento de baterias mais baratas, o que permitirá que a eletricidade seja armazenada e descarregada conforme a demanda.

Nas próximas três décadas, US$ 11,5 trilhões deverão ser investidos em nova capacidade de geração de energia, com US$ 8,4 trilhões deste total em eólica e solar, e outros US$ 1,5 trilhão em outras tecnologias de carbono zero, como hidrelétrica e nuclear. Esse investimento produzirá um aumento de 17 vezes na capacidade solar fotovoltaica em todo o mundo e um aumento de seis vezes na capacidade de energia eólica.

Indústria do carvão

As perspectivas para a indústria do carvão não são nada animadoras. O estudo estima que a queima de carvão nas usinas cairá 56% entre 2017 e 2050. Para os analistas da BNEF, essa queda oferece uma projeção mais otimista para as emissões de carbono do que o relatório do ano passado. O estudo prevê um aumento das emissões globais do setor elétrico de 2% em 2017 para um pico em 2027 e depois uma diminuição de 38% em 2050.

No entanto, isso ainda significaria que o setor energético global não cumpriria sua parte do esforço de manter os níveis globais de CO₂ abaixo de 450 partes por milhão, considerado suficiente para limitar o aumento da temperatura média global a dois graus centígrados e evitar as piores previsões das mudanças climáticas.

Gás

Já para o gás, o futuro é mais reconfortante. O papel do gás no mix de geração evoluirá, com aumento na construção e utilização de usinas elétricas para proporcionar suporte para as energias renováveis, em vez de produzir a chamada eletricidade de carga base ou contínua. A BNEF estima que a geração a gás terá um aumento de 15%, entre 2017 e 2050, embora sua participação na eletricidade global caia de 21% para 15%.

Transporte eletrificado

O crescimento do setor de transportes elétricos também influenciará o tabuleiro energético mundial, representando 9% da demanda total até 2050.  Com base em outro estudo da BNEF, o Electric Vehicle Outlook, os veículos elétricos representariam 28% das vendas globais de carros novos até 2030 e 55% até 2040. Os ônibus elétricos devem dominar seu nicho, alcançando 84% de participação global até 2030. 

Fonte: Vanessa Babosa | Exame

Brasil se tornará autossuficiente em gás até 2022

O gás natural pode ganhar papel de maior importância na matriz energética nos próximos anos. De olho no desenvolvimento das reservas do pré-sal, o governo pretende fazer mudanças importantes na política de gás. Isso é necessário ainda em razão da venda de ativos da Petrobras no setor. A estatal está deixando de ser a líder nos projetos em desenvolvimento, papel que será assumido pela iniciativa privada.

Até o fim do mês, o Ministério de Minas e Energia pretende lançar as resoluções finais do programa Gás para Crescer, que serve como um novo marco regulatório para o setor. O ministro Fernando Coelho Filho disse que o Brasil vai ser autossuficiente em gás entre os anos de 2021 e 2022.

Ele cita um exemplo do potencial de gás. O Campo de Pão de Açúcar, no pré-sal da Bacia de Campos, tem 15 milhões de metros cúbicos. Segundo ele, é metade da capacidade do Gasoduto Brasil-Bolívia.

— O gás vai ter uma entrada muito grande. Estamos às vésperas da renovação do contrato de importação de gás da Bolívia, que vence em 2019. Uma das iniciativas é o Gás para Crescer. Todo mundo participou. Haverá muitos players (empresas) para poder usar todo esse gás. E é preciso aproveitar as oportunidades. O gás sempre esbarrava no gás importado. Em 2021 e 2022, o país será autossuficiente em gás e a gente quer aproveitar esse gás para o desenvolvimento no país — disse o ministro de Minas e Energia.

LEILÃO DE TERMELÉTRICAS

Segundo ele, dentro das novas diretrizes do Gás para Crescer, o governo pretende fazer no fim do ano o primeiro leilão de usinas termelétricas a gás para operar na base do sistema. Ou seja, vão operar de forma contínua.

Hoje, as termelétricas, independentemente da fonte de energia, só são acionadas em casos de emergência, quando o nível dos reservatórios está baixo.

Ele cita um levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a reguladora do setor, que aponta que, se as termelétricas que operam hoje apenas em casos emergenciais atuassem de forma contínua, haveria ganho financeiro e o nível dos reservatórios seria maior.

— E isso está sendo projetado para os leilões que o governo quer fazer no fim do ano: a termelétrica inflexível a gás (que opera sem interrupção), que é a fonte térmica firme mais barata que temos. Um leilão que fazemos este ano só entra no sistema em cinco ou em seis anos. Ter geração na base vai dar estabilidade na base e vai trazer segurança, sobretudo no Nordeste — disse o ministro.

Fonte: O Globo

 

Revolução da energia barata chegou e o carvão está de fora

As energias eólica e solar estão prestes a se tornarem invencíveis, a produção de gás natural e petróleo está se aproximando do pico e os carros elétricos e baterias para as redes de eletricidade esperam o momento de assumir o controle. Este é o mundo que Donald Trump herdou como presidente dos EUA. E ainda assim o plano energético dele é eliminar restrições para ressuscitar um setor que nunca voltará: o de carvão.

As instalações de energia limpa quebraram novos recordes em todo o mundo em 2016 e as energias eólica e solar estão recebendo duas vezes mais financiamento que os combustíveis fósseis, segundo novas informações divulgadas na terça-feira (25) pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF). Isso se deve em grande parte ao fato de os preços continuarem caindo. A energia solar está se tornando, pela primeira vez, a forma mais barata de gerar eletricidade nova no mundo.

Mas com os planos de desregulamentação de Trump, o que “vamos ver é a era da abundância — turbinada”, disse o fundador da BNEF, Michael Liebreich, durante apresentação em Nova York. “É uma boa notícia economicamente, mas há um pequeno senão: o clima.”

Queda nos custos

Os subsídios governamentais têm ajudado as energias eólica e solar a garantirem presença nos mercados globais de energia, mas as economias de escala são o verdadeiro motor por trás da queda dos preços. As energias eólica e solar não subsidiadas estão começando a ganhar a concorrência contra o carvão e o gás natural em um grupo cada vez maior de países.

Os EUA podem não liderar o mundo em energias renováveis enquanto porcentagem da produção de sua rede, mas vários estados estão superando as expectativas.

As energias eólica e solar decolaram — a tal ponto que as operadoras de rede da Califórnia estão enfrentando alguns dos mesmos desafios de regular as oscilações das energias renováveis de alta densidade que têm afetado a revolução energética da Alemanha. A expansão nos EUA não é a primeira, mas tem sido notável.

A demanda por eletricidade nos EUA vem caindo, em grande parte devido à eficiência energética maior em tudo, de lâmpadas e TVs à indústria pesada. Em um ambiente como esse, o combustível mais caro perde, e este perdedor, cada vez mais, tem sido o carvão.

Com a entrada das energias renováveis na matriz, até mesmo as usinas de combustíveis fósseis que ainda estão em operação estão sendo usadas com menor frequência. Quando o vento está soprando e o sol está brilhando, o custo marginal dessa eletricidade é essencialmente gratuito, e energia gratuita sempre ganha. Isso significa também lucros menores para usinas de energia baseadas na queima de combustível.

A má notícia para as produtoras de carvão fica ainda pior. Os equipamentos de mineração dos EUA se tornaram maiores, melhores e muito mais eficientes. Talvez o que mais afeta os empregos na indústria do carvão sejam os equipamentos de mineração melhores. O estado da Califórnia atualmente emprega mais gente na indústria de energia solar do que a indústria do carvão em todo o país.

Fonte: Bloomberg | Tom Randall

Energia solar se torna mais barata que combustíveis fósseis

As energias renováveis atingiram um importante marco em 2016. De acordo com relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), em 30 países, incluindo o Brasil, as energias solar e eólica já podem ser produzidas gastando-se menos do que com algumas oriundas de combustíveis fósseis, caso do carvão e do gás.

Carvão e gás são responsáveis atualmente por 62% da geração total de energia do mundo, segundo dados do Banco Mundial.

Enquanto o custo da energia, o chamado LCOE (Custo Nivelado de Energia), do carvão gira em torno de US$ 100 o megawatt/hora, o preço da energia solar caiu de US$ 600, como era há uma década, para US$ 300 há cinco anos e atualmente já está próximo ou abaixo de US$ 100. O LCOE da energia eólica já chegou em alguns lugares próximo a US$ 50. A análise do WEF não leva em conta o custo da energia gerada pelo petróleo.

Foto: Época Negócios/Reprodução

Foto: Época Negócios/Reprodução

Os 30 países analisados, segundo o WEF, atingiram “um ponto de inflexão”, onde a energia solar custa o mesmo ou até menos do que a energia produzida pelas fontes tradicionais e mais poluentes. Chile, México, Brasil  e Austrália são alguns dos países citados que alcançaram o “ponto de inflexão”. O WEF projeta que dois terços dos países do mundo vão chegar neste nível em alguns anos. Em 2020, a energia solar fotovoltaica terá um custo menor que o carvão e gás em todo o mundo. “As energias renóveis atingiram esse ponto”, disse Michael Drexler, que lidera a área de investimentos de infraestrutura e desenvolvimento do WEF, ao Quartz. “Não tornaram-se apenas uma opção viável comercialmente, mas bem como uma opção atrativa, pensando no longo prazo, estabilidade e considerando a inflação futura”.

Um ponto importante é avaliar que a redução de preço ocorreu sem necessariamente incremento de subsídios. “Segundo a International Energy Agency (IEA) , os combustíveis fósseis receberam US$ 493 bilhões em subsídios em 2014, quatro vezes mais do que os subsídios endereçados às energias renováveis”, analisa o relatório.

O levantamento também cita uma análise recente da International Energy Agency mostrando que a capacidade instalada de energia limpa cresceu 153 gigawatts, superando a estrutura instalada para carvão por exemplo. Na prática, isso significa que cerca de 500 mil paineis solares são instalados no mundo todos os dias.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, um dos maiores desafios para investidores nos próximos anos será lidar com um cenário de poucas oportunidades – e a necessidade crescente de alocar um maior capital considerando um maior número de passivos. Isso porque um dos maiores desafios do mundo é lidar com o aquecimento global e seus impactos econômicos e negativos para a humanidade.

Nesse sentido, segundo o fórum, as infraestruturas “renováveis” já atingiram um nível de maturidade que constituem um sólido investimento e aumentam as chances de reverter os impactos causados pelo aquecimento.  Entre as barreiras para esse tipo de investimento estão incertezas regulatórias, contratos não padronizados e falta de ativos específicos dentro das instituições financeiras.

Fórum Estadual de Energia discute futuro do setor no Rio Grande do Norte

Consolidado no calendário estadual, evento vai debater desafios e perspectivas do setor energético e traz como convidado especial um especialista da Comissão Energética da Califórnia.

No próximo dia 26 de outubro Natal sedia a quarta edição do Fórum Estadual de Energia do Rio Grande do Norte (FEERN 2016​). O evento se consolida como um dos mais importantes do setor energético no estado e vai​ reunir autoridades, empresários, pesquisadores e demais interessados para debater o panorama do mercado energético no RN.

Esta edição recebe um convidado especial, que vai trazer a visão do mercado internacional sobre o futuro da energia no nordeste brasileiro. Andrew McAllister é Membro da Comissão Energética da California – CEC. Possui mais de 20 anos de experiência técnica, programática e política nas áreas de gestão, eficiência e geração de energia renovável.

O FEERN tem como principal proposta ser um espaço de discussão sobre o mercado energético e suas atividades em curso. Os desafios, investimentos e resultados obtidos em cada área, serão debatidos e analisados com o objetivo de apresentar ao público um balanço completo e exclusivo do setor energético em 2016.

O fórum é uma realização do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE) em parceria com o Sindicato das Empresas do Setor Energético do RN (SEERN)​. Esta quarta edição conta também com o apoio do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O FEERN 2016 será realizado no auditório do Campus Central do ​Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), em Natal, no dia 26/10/2016, das 13h às 17h. Para mais informações, acesse: www.feern.com.br.

Fonte: CERNE Press

Gigantes do setor de óleo e gás têm interesse em novos campos no Brasil

Gigantes petroleiras mundiais já sinalizaram ao governo brasileiro que pretendem voltar a investir no Brasil em novos campos caso sejam promovidas importantes mudanças regulatórias. A principal delas envolve o pré-sal, com o fim da obrigatoriedade de a Petrobras atuar como operadora única e de deter, no mínimo, 30% das áreas no regime de partilha.

Segundo uma fonte do setor, as companhias americanas se preparam para investir no pré-sal brasileiro em 2017. Já procuraram até o governo. Entre as maiores dos EUA, estão Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips. “As companhias estão querendo voltar ao Brasil com força porque o pré-sal vem se mostrando muito atrativo nesses últimos anos”, disse essa fonte.

Advogados e especialistas do setor também ressaltam a maior procura pelo Brasil.”O mundo está de olho no Brasil, porque tem reservas significativas de petróleo. Todas as grandes petroleiras estão observando o país com interesse, como a Ecopetrol da Colômbia, a Total e a Statoil, entre outras, não só no pré-sal, mas em todo o potencial geológico”,  destacou Alexandre Chequer, advogado da Tauil & Chequer Advogados.

Conteúdo local

Mas, para que o país volte a atrair um volume maior de investimento no setor, empresários e especialistas afirmam que será fundamental o governo alterar a regulamentação. Além da abertura da exploração do pré-sal por empresas privadas e as novas regras para o conteúdo local, um ponto destacado é a extensão do prazo do Repetro, regime aduaneiro do setor que vence em 2019. Segundo Edmar Almeida, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ, a renovação é importante, pois permite reduzir a carga tributária sobre os investimentos.

Sônia Agel, advogada especialista em petróleo e gás do L.O. Baptista-SVMFA, ressaltou que o fim da exigência de a Petrobras atuar como operadora única no pré-sal e a extensão do prazo do Repetro são medidas fundamentais a serem adotadas no curto prazo para voltar a estimular os investimentos na indústria petrolífera no país. Mas acrescenta que é preciso estabilidade.

“Para atrair investimentos não basta apenas acabar com o operador único no pré-sal. É preciso ter primeiro estabilidade econômica e também estabilidade regulatória. Não deveria se considerar o conteúdo local como um dos itens para declarar o vencedor de um leilão. Isto porque o parque industrial brasileiro não está preparado para atender 100% do conteúdo local. Ainda mais agora que teve uma redução da oferta desses produtos nacionais em função da crise interna e dos efeitos da Operação Lava-Jato, que atingiu muitas empresas”, destacou Sônia.

Agenda regular de leilões

O diretor-geral da Total E&P do Brasil, sócia da Petrobras em Libra, Maxime Rabilloud, disse ainda que, como a indústria petrolífera trabalha com investimentos a longo prazo, é fundamental ter regras tributárias estáveis e um calendário de leilões.

“Ter um regime tributário estável e uma agenda transparente e regular de leilões também é essencial para manter o crescimento das empresas. Mesmo diante desses desafios, o Brasil continua sendo uma região importante para a estratégia de crescimento da Total nos próximos anos”, garantiu.

Carlos Assis, sócio líder do Centro de Energia da EY (ex-Ernst & Young), lembrou que as mudanças na regulação que estão sendo feitas pelo governo trazem uma sinalização positiva para os investidores.

“Para as grandes companhias do setor, o pré-sal é uma área muito atrativa. O acordo entre a Petrobras e a Statoil é uma sinalização disso. As mudanças nas regras já deveriam ter sido feitas”, disse Assis.

Fonte: Portal O Petróleo

Royalties do petróleo caem 32% no Rio Grande do Norte

Estado e municípios potiguares receberam R$ 61,8 milhões a menos em royalties de petróleo e gás nos primeiros seis meses de 2016, quando comparados aos repasses realizados no mesmo período do ano passado. A queda foi de 32%. Foram R$ 130,8 milhões até junho, contra 192,6 milhões somados de janeiro a junho de 2015. A redução naquele ano, já havia sido de 31% em relação a 2014.

Os dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Somado ao déficit registrado em 2015, quando o Rio Grande do Norte embolsou R$ 163 milhões a menos, praticamente R$ 225 milhões deixaram de entrar nas contas do governo do estado e das prefeituras, aprofundando a crise financeira.

O motivo para a redução acentuada do repasse, dizem os atores desse mercado ouvidos pelo NOVO, foi principalmente a queda do valor do barril de petróleo, que chegou a custar US$ 120 (em 2008), caiu para US$ 29 e agora está a US$ 50. Em menor medida, a responsabilidade também foi da queda da produção potiguar. Dez anos atrás a Petrobras produzia 76 mil barris de óleo por dia aqui, segundo a própria empresa. Atualmente, apesar de o estado se manter na liderança na produção onshore (em terra), a estatal extrai do subsolo potiguar 65 mil barris por dia. Nos últimos dois anos, cerca de 10 mil trabalhadores perderam seus empregos no setor petrolífero do estado, segundo o presidente Sindicato dos Petroleiros do RN (Sindipetro/RN), José Araújo. Toda a cadeia envolvendo 70 mil postos de trabalho está ameaçada, de acordo com ele.

A preocupação dos trabalhadores e das empresas que prestam serviços à Petrobras no estado aumentou com a apresentação, em março deste ano, de um plano de desinvestimentos, que vai colocar à venda 104 concessões de campos maduros principalmente em estados do Nordeste. Somente no Rio Grande do Norte, são 38, cuja venda deve ocorrer até o final do ano – os primeiros contratos são aguardados para agosto. Os poços colocados à venda aqui representam 23% da produção em terra, ou 15 mil barris por dia.

Por outro lado, consultores do setor, empresas exploradoras de pequeno e médio porte e até o governo do estado vislumbram um reaquecimento do setor a partir da venda dessas áreas. Para eles, a entrada da iniciativa privada no mercado local causaria a retomada dos investimentos na produção de petróleo potiguar, o retorno dos empregos e o reaquecimento da economia, principalmente nos municípios do interior. “Acredita-se que os produtores independentes conseguem investir mais nesses campos do que a Petrobras vinha investindo nos últimos anos, porque ela investiu muito, com lógica empresarial, na produção offshore (em mar), que é muito mais lucrativa”, diz Nicolás Honorato, da Austral Consultoria e diretor da Conferência e Encontro de Negócios do Setor de Petróleo do Norte e Nordeste do Brasil (PetroNor). O evento ocorreu quinta (14) e sexta-feira (15) em Natal. “Acreditamos que aquelas empresas que têm foco na produção em terra vão conseguir aumentar a produção e, portanto, aumentar a compra de bens e serviços, gerar mais empregos aqui na região”, concluiu.

O superintendente de Dados Técnicos da ANP, Paulo Alexandre Silva, afirmou durante a PetroNor que o repasse de campos maduros é previsto desde a Lei do Petróleo, de 1997. “Não é discutir a saída da Petrobras. Uma hora esse poço deixa de ser atrativo para o grande produtor. Mas se ele produzir um barril por dia é interessante para alguém. Somente agora, 18 anos depois, em território terrestre, estamos começando isso”, discursa. O que é solução para uns representa uma ameaça aos trabalhadores, na avaliação do Sindipetro. José Araújo afirma que a venda dos poços maduros configura uma “política de desmonte e de entrega das nossas riquezas ao capital internacional”. De acordo com ele, ao longo de quatro décadas, a estatal extraiu um bilhão de barris de petróleo do subsolo do estado.

Venda de campos maduros pela Petrobras  divide opiniões no RN

Logo que começarem a operar os campos maduros, as empresas independentes de pequeno e médio porte que comprarem os ativos da Petrobras poderão aumentar em até 30% a produção desses poços, diz o secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (ABPIP), Anabal Santos Júnior. “A gente poderia até dobrar essa produção”, acrescenta. De acordo com ele, baseado em um estudo para avaliar as implicações sociais do novo modelo, as empresas poderiam empregar cerca de 14 mil pessoas nos poços potiguares, o que recuperaria as vagas perdidas nos últimos anos. Para melhorar o aproveitamento de poços maduros, são usados processos de injeção de água ou vapor de água nos poços.

Há algumas experiências fora do país que podem e devem ser observadas pelo mercado local, aponta Anabal Santos Junior. No Brasil, atuam 20 empresas independentes, produzindo três mil barris por dia – “um mercado insipiente”, nas suas palavras. Cerca de quatro operam no Rio Grande do Norte. A possibilidade de aquisição desses poços pode aumentar o mercado a exemplo do que foi visto em países como o Canadá. Lá existem atualmente duas mil empresas desse tipo. Nos Estados Unidos, são oito mil.

A ANP considera empresa de pequeno porte aquela que produz até mil barris de óleo equivalente (um cálculo que soma produção de petróleo e gás). Abaixo de 10 mil barris, a empresa é considerada média. Anabal Santos reforça que essas empresas demandariam insumos que seriam fornecidos por empresas locais, o que aqueceria o mercado.

Licenciamento

Anabal Santos aponta a necessidade de um esforço do estado para facilitar o licenciamento ambiental dessas áreas e evitar uma paralisação das operações dos poços durante a transição de mando das concessões. Quando as vendas forem concretizadas, a empresa compradora passará a operar imediatamente. O problema é que, se não tiver licenças, os poços ficarão parados. “O estado pode fazer licenças precárias, transitórias, para que não tenha essa paralisação”, sugere. Ele ainda reforça que a operação de poços onshore ( em terra) é bem mais segura e menos perigosa para o meio ambiente e defendeu uma simplificação da legislação para esse tipo de exploração. “É preciso rever o marco regulatório. Hoje quem produz 10 barris enfrenta as mesmas exigências de quem produz 30 mil. A gente precisa simplificar e unificar essa legislação. E isso não significa  negligenciar”, argumenta.

O secretário executivo da Abpip aponta exemplos que considera praticamente impossíveis de acontecer no Brasil. Em Oklahoma, nos Estados Unidos, é possível encontrar cavaletes tirando petróleo da terra entre duas pistas de pouso de avião, ou ainda no meio de uma plantação de milho, ao lado de uma pizzaria. “Aqui teria que ter 500 quilômetros de distância”, ironiza.

Outra preocupação do setor, aponta ele, é a garantia de compra desse petróleo, já que a Petrobras mantém um monopólio no refino. “É preciso uma regra clara. O produtor não pode participar da licitação sem saber quanto vai receber pelo produto”, conclui.

Áreas para concessão

As áreas sob concessão da Petrobras contém dezenas, às vezes,  centenas de poços, cada, o que ainda dificultaria a entrada de pequenos empreendedores nesse setor. Conforme o consultor Nicolás Honorato, diretor da PetroNor, o volume de investimento é  variado, a depender dos locais em negociação. “Já vimos US$ 200 mil a US$ 20 milhões”, compara. Ainda não há informações sobre como ocorrerá a venda das 104 concessões e os valores exigidos pela Petrobras.

O diretor técnico do Sebrae, João Hélio Cavalcanti, defende que o país desenvolva um modelo que permita o pequeno empreendedor a começar a aplicar dinheiro em áreas com pouco poços. “Essa transição que foi feita em outros países mostrou que geram-se mais oportunidades de negócio, assim como gera mais trabalho e renda. Temos que ter um modelo em que um pequeno produtor possa investir e ter 5 ou 10 poços”, defende. “Seria interessante para alguém que começou prestando um serviço e cresceu um pouco, começar a investir na exploração”, exemplifica.

José Ferreira de Melo Neto, superintendente do Sebrae, lembra que há 20 anos, o Sebrae começou um trabalho envolvendo pequenas empresas que hoje são fornecedoras da  Petrobras – algumas com serviços de tecnologia de alto padrão. Para ele, a venda de ativos da estatal é mais uma chance de renovação do mercado que surge. “A gente tem que colher da dificuldade algumas oportunidades. Como a gente tem que procurar inserir a pequena empresa do Rio Grande do Norte nesse processo, aproximar os fornecedores da associação de empresas independentes, que não são tão pequenas assim”, comenta.

O secretário-adjunto de Planejamento do Rio Grande do Norte, Otomar Lopes Cardoso Júnior, ainda aponta que empreendedores potiguares podem ter a oportunidade de se associarem para atender um novo mercado que deve surgir. “O setor precisa se organizar. É hora de se fazer alianças porque em algumas situações o empreendedor individual, uma pequena empresa não tem capacidade de atender esse mercado”, garante. Presidente da Redepetro – a associação de empresas prestadoras de serviço à Petrobras – Gutemberg Dias defende a abertura do mercado para empresas menores, e que a Petrobras mantenha investimentos no estado. “Ela é a locomotiva do setor de petróleo e gás no estado e no Brasil”, argumenta. Ele é testemunha da crise do setor em Mossoró provocada pela falta de investimentos. “Em apenas um contrato com a Petrobras tive que reduzir 30% da mão de obra”, aponta. Procurada pelo NOVO, a Petrobras não respondeu às perguntas enviadas até o fechamento desta edição.

Protestos contra projeto da empresa

O Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Norte (Sindipetro/RN) vai entrar com diversas ações civis e de Direito Econômico até o próximo dia 31 para tentar impedir a venda dos ativos da Petrobras no estado. A categoria também se organiza para realizar uma greve de cinco dias em agosto, em datas ainda a serem confirmadas. A informação partiu do próprio presidente da entidade, José Araújo. De acordo com ele, a pretensão da empresa é deixar as regiões do Nordeste em que atua em produção de terra e águas rasas.

“Temos uma cadeia de 70 mil trabalhadores diretos e indiretos que está ameaçada, dezenas de municípios que vão ficar sem royalties”, frisa. Para ele, a entrada de pequenas empresas não vai repor a possível saída da Petrobras na operação dessas áreas.

Araújo explica que a dívida da Petrobras, de R$ 460 bilhões, chegou a esse nível por causa da captação de recursos, em dólar, para investimentos da empresa no pré-sal. O dólar subiu muito logo em seguida.

Ele reforça que o estado ainda tem muita capacidade de produção de petróleo. “Ainda temos três bilhões de barris em reservas, suficientes para mais 120 anos. O primeiro poço perfurado no estado, em Alto do Rodrigues, continua produzindo até hoje”, argumenta. Para isso, salienta ele, é preciso mais investimento para perfuração de novos poços.

Estão à venda também 34 concessões no Polo de Riacho da forquilha, 34 concessões que produzem 8 mil barris de petróleo por dia; e quatro concessões do Polo de Macau, com quatro concessões –  anunciadas no início do ano. A Petrobras poderá colocar à venda sete plataformas no estado, cuja paralisação temporária (de até 12 meses) foi autorizada pela ANP nesta semana.

Audiência

O diretor do Centro de Estratégia em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates critica o fato de haver pouco diálogo entre os diversos atores na discussão sobre o desinvestimento e a venda dos ativos. “Você tem os grupos que defendem que a Petrobras tem que passar esses campos adiante, porque ela é grande, porque é inchada, etc. E por outro lado, outro grupo defendendo que isso é uma riqueza nacional, da Petrobras, e que não vai vender. Não se chega a um caminho porque existem interesses humanos, sociais que não estão sendo atacados”, concluiu.

“Se não fosse a energia eólica, a situação estaria pior. Muitas empresas, nessa crise, migraram para lá”, diz Prates.

Acontece amanhã (18), às 9h, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, uma audiência pública promovida pelo deputado estadual Fernando Mineiro (PT) sobre o tema.

Fonte: Igor Jácome | Novo Jornal