Setor eólico tem ânimo renovado com a retomada dos leilões

Fonte vê recuperação com agendamento de licitações, mas novas regras e financiamento trazem interrogações

A chave virou, e virou para melhor. Após quase dois anos de paralisia, sem novos projetos e com investimentos em queda, a sensação de retomada da agenda positiva para o setor eólico brasileiro permeou o “Brazil Windpower 2017”, realizado entre 29 e 31 de agosto no Rio de Janeiro. A mudança de clima veio apenas no início do mês passado, na forma de uma portaria ministerial da pasta de Minas e Energia definindo a realização dos Leilões de Energia Nova A-4 e A-6 para os dias 18 e 20 de dezembro. A confirmação de retomada das licitações de geração fez o setor arregaçar as mangas e refazer seus planos, o que se refletiu em um maior interesse dos vários segmentos da cadeia eólica em marcar presença no BWP deste ano. O evento manteve o nível de patrocínios e de expositores dos anos anteriores, e projetou uma edição ainda maior em 2018.

Co-promotora do “Brazil Windpower” ao lado do Grupo CanalEnergia, a Associação Brasileira de Energia Eólica enfatizou que a confirmação do retorno da agenda de licitações por parte do governo recuperou as expectativas de todos os agentes. A poucas semanas da oitava edição do encontro anual, a entidade traçava planos pouco otimistas em termos de mobilização, após ouvir relatos por parte de fabricantes, fornecedores de serviço, certificadores, entre outros atores do setor eólico, de que a indústria não suportaria mais um ano sem a realização de leilões para viabilização de novos projetos – no último pacote de contratação, datado de 2015, foi adquirido cerca de 1 GW, volume inferior à média dos anos anteriores que girava em 2 GW. Agora, a esperança no futuro é positiva.

“A verdade é que todos nós estávamos muito apreensivos com a edição desse ano do Brazil Windpower. Tivemos um 2016 péssimo para o segmento, em função principalmente do cancelamento do Leilão de Reserva do fim do ano. Mas a publicação da portaria dos próximos certames, no último dia 4 de agosto, trouxe um grande alívio e um ânimo para o setor. O movimento de negócios foi retomado, e a feira de expositores do evento mostrou isso claramente. Houve uma virada de chave”, avalia Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica. No primeiro dia de debates, a entidade celebrou a marca de 12 GW de capacidade instalada no país, patamar que, nas projeções do planejamento oficial, deverá saltar para cerca de 16 GW em 2021.

Secretário-executivo do MME, Paulo Pedrosa ressaltou na abertura que a expansão do setor nos próximos anos estará diretamente associada às fontes renováveis em conjunto com uma base de usinas térmicas, ao mesmo em que descartou o modelo ancorado em projetos estruturantes – especialmente nas grandes hidrelétricas na região Amazônica. Ao defender o que chamou de “limpeza”, descontratando projetos acima da demanda de mercado e revendo a garantia física de diversas usinas, Pedrosa defendeu as medidas como uma lição de casa feita pela atual equipe de governo, que em um primeiro momento se comprometeu com os agentes em “arrumar a casa”. Em outras palavras: eliminar sobrecontrações e sobras antes de partir para a aquisição de novos projetos.

A valorização da eólica não só como visão de futuro, mas em particular pelo papel que ela já desempenha hoje para o abastecimento, foi ratificado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. Durante painel de debate, o diretor-geral do órgão, Luiz Eduardo Barata, mostrou em tempo real que a geração eólica atendia a 53% da carga na região Nordeste, exemplificando a importância da fonte. “A chegada da eólica no Nordeste foi a salvação para o abastecimento da região”, exaltou, citando que a forte crise hídrica dos últimos três anos na bacia do rio São Francisco pôs a fonte eólica no topo do fornecimento elétrico regional, chegando a atender até 60% da demanda nordestina. O quadro, disse ele, deverá permanecer nos próximos anos.

A relevância que a eólica adquiriu para o abastecimento do Nordeste passa pelas excepcionais características técnicas da região, cujo regime de ventos está acima dos melhores do mundo. Alessandra Maciel, engenheira do ONS, destacou que o fator de capacidade médio da geração eólica na região ao longo de 2016 chegou a 44%, acima das médias do SIN (41,6%) e do Brasil (38%) – esta já superior à média de 34% de mercados como Reino Unido, Dinamarca e Turquia. Por outro lado, um dos pontos críticos levantados pela especialista foi tema de debates de alta relevância ao longo do BWP deste ano: a dificuldade em prever as condições de operação em escala diária, dada a grande variabilidade dos ventos e a dependência das condições meteorológicas.

Um dos destaques dados no evento sobre este tema foi o modelo de previsão de geração eólica do ONS, lançado no início de agosto fruto de uma parceria da entidade com a Abeeólica. O sistema responde às necessidades de previsão de um dia para o outro com margem de acerto de 92%, índice considerado alto. O foco, agora, está voltado para o aumento da capacidade de previsão intraday – ou seja, em escala horária. A discussão em torno da previsibilidade operativa passa diretamente pelo tema da mitigação da intermitência na geração – ou melhor, na mitigação da variabilidade, como frisa a Elbia Gannoum. Ela explica que a redução da geração eólica em momentos de menor incidência de ventos não significa interrupção da produção.

A natureza de variabilidade e de não-despachabilidade da eólica pode ser resolvida de três formas, defende a presidente da Abeeólica. Uma delas é mitigando a variabilidade com mais variabilidade, a partir de uma distribuição regional. Como o Nordeste apresenta quatro quadrículas diferentes de vento, a ideia é que o espaçamento dos parques equilibre a geração de todo o subsistema. Segundo a executiva, outra forma de mitigar a variação natural é agregando usinas despacháveis por definição, como térmicas flexíveis ou hidrelétricas. A terceira forma seria promover um maior intercâmbio regional, algo que hoje ocorre inclusive com o Nordeste assumindo o papel de exportador. “Esses fatores podem melhorar a operação das eólicas”, completou Elbia.

Moderador do painel que discutiu justamente a questão da integração de fontes renováveis não-despacháveis no SIN, o diretor técnico da consultoria PSR, Bernardo Bezerra, aponta a existência dos reservatórios de acumulação como uma das grandes razões para o sucesso da energia eólica no Brasil, na medida em que eles permitem a absorção da variabilidade operativa dos parques brasileiros. A crise hídrica que vem afetando o Nordeste nos últimos anos, entretanto, está reduzindo de forma gradual o controle da capacidade de retenção de água nas barragens da região, fato que impacta diretamente no aumento expressivo do despacho termelétrico. “Há um custo associado a esse maior uso das térmicas”, observou Bezerra.

Debatedor do mesmo painel, o diretor-presidente da EDP Renováveis Brasil, Renato Volponi, vê a discussão em torno da variabilidade da eólica como um “bom problema”, reflexo da forte expansão que a fonte vem tendo no país ao longo desta década. Na avaliação do executivo, a variação da geração em razão da inconstância do regime de ventos representa um problema técnico, cuja solução passa pela complementariedade tanto com outras fontes renováveis, como a solar fotovoltaica e a hídrica, quanto com baterias – esta opção em mais longo prazo. Ele ressaltou ainda a importância na dissolução de gargalos na área de transmissão, como forma de ampliar a capacidade de interconexão entre os subsistemas, facilitando a condição de despacho do ONS.

Além das questões técnicas, o contexto político centralizou grande parte dos debates nos painéis do BWP 2017. O foco neste caso, como não poderia deixar de ser, foi o novo marco institucional do setor elétrico, recém-saído de processo de consulta pública no MME e ainda alvo de muitas dúvidas e pleitos de ajuste por parte dos agentes. O presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia, Reginaldo Medeiros, acredita que a reforma institucional do mercado de energia, na medida em que consiga eliminar incertezas regulatórias e financeiras, poderá promover a expansão da eólica no mercado livre, hoje ainda incipiente. Para o dirigente, a separação de lastro e energia vai estimular a entrada de renováveis no ACL.

Para o presidente da Votorantim Energia, Fabio Zanfelice, a perspectiva de as fontes renováveis suprirem o crescimento esperado para o mercado livre é real, embora entraves atuais como preço e subsídios necessitem de tratamento por parte das novas regras em debate no setor. Do ponto de vista da cadeia de abastecimento, os desafios apresentados no painel que reuniu alguns dos principais empreendedores do setor eólico passaram pela preservação da cadeia de fornecedores de equipamentos e serviços, fortemente afetada pelos quase dois anos sem a realização de leilões públicos de expansão com novos projetos. Todos os participantes foram unânimes em apontar a carência de um calendário prévio de licitações como um fator prejudicial à indústria.

Entre investidores, supridores de materiais e dirigentes de entidades ligadas ao segmento eólico, o item financiamento foi sempre posto como preocupação para a concretização dos planos ambiciosos de crescimento da fonte na matriz elétrica brasileira. Em um foro de discussão dedicado especialmente ao assunto, representantes de bancos privados e instituições públicas abordaram a dificuldade de o país poder contar com fontes de crédito além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, responsável por R$ 33 bilhões em operações aprovadas para a viabilização de aproximadamente 11 GW. Carla Primavera, superintendente de Energia do BNDES, foi taxativa: da parte do banco, não existem incertezas quanto a crédito de longo prazo.

Na visão dos agentes privados, o papel central do BNDES no desenvolvimento do mercado de renováveis será dividido com os bancos comerciais a partir da implementação da TLP, a nova taxa dos contratos de financiamento da instituição que sucederá à TJLP. Marcelo Girão, chefe da Divisão de Project Finance do Itaú BBA, acredita que o uso da TLP vai tirar competitividade do BNDES ao longo dos próximos anos, o que naturalmente abrirá espaços para os bancos comerciais. Ele ressaltou ainda que medidas do novo modelo, como a separação de lastro e energia, mudarão a maneira de como se financiam projetos no setor. “Quando houver a introdução do risco de preços, as análises serão naturalmente mais conservadoras”, avalia.

Durante a discussão, o chefe de Energia da Divisão de Project Finance do Banco Santander, Edson Ogawa, ressaltou que o mercado livre é financiável no Brasil, mas que fatores como a previsibilidade dos contratos são fundamentais para uma maior participação dos organismos privados nos negócios de energia e do segmento eólico em particular. “A precificação do mercado spot, com critérios de separação de lastro e energia, precisa ser muito bem trabalhada, e a previsibilidade terá de ser muito bem aprimorada”, sublinhou, destacando que operações de financiamento de longo prazo, além de não fazerem parte da natureza dos bancos privados, requerem a viabilização de um mercado secundário, como o existente no setor de seguros.

Apesar das ressalvas por parte dos financiadores, a perspectiva por parte do governo é otimista quanto ao crescimento da eólica para além dos leilões públicos de contratação. Luiz Augusto Barroso, presidente da EPE, falou em “reinvenção” da fonte, ao defender a busca do mercado livre como alternativa às licitações do governo. Assim como os representantes do mercado financeiro, Barroso também apontou a questão da falta de confiança dos agentes na precificação do mercado livre como justificativa para a manutenção da importância do ambiente regulado. Todos os 11 GW em novos projetos eólicos contidos no Plano Decenal de Energia 2026, recentemente lançado pela estatal de planejamento, estão vinculados a leilões governamentais.

Mas a edição deste ano do BWP foi muito além do congresso e dos debates técnicos. A feira de negócios atraiu a maior parte dos 2.679 visitantes que passaram pelo Centro de Convenções Sulamérica durante os três dias de evento. Foram 92 expositores, entre os quais seis fabricantes de aerogeradores instalados no Brasil, a gigante chinesa recém-chegada ao país Goldwind, fornecedores de equipamentos e serviços, grandes investidores, entidades de capacitação profissionais e empresas de diversas áreas ligadas direta e indiretamente ao segmento de geração eólica no Brasil e no exterior. Se a feira serviu como termômetro para o interesse em novos projetos e oportunidades de negócio, ficou a certeza de que o mercado está aquecido.

O ambiente visto nos stands era de confiança na retomada do fluxo de movimentação de negócios, diferentemente do cenário visto nos últimos dois anos, quando a retração na demanda energética causou apreensão entre os agentes geradores. Renato Volponi, diretor-presidente da EDP Renováveis Brasil, lembra que em 2016 o setor estava confiante na realização do leilão em dezembro daquele ano, em que pese houvesse também uma apreensão quanto ao nível de consumo. “As distribuidoras estavam sobrecontratadas, e o caminho do leilão de reserva, apesar de sinalizado naquele momento, era uma incógnita, até mesmo em função da mudança de governo. Era o início do processo de renovação que vemos agora no setor elétrico”, diz.

Os dias na feira foram de bastante trabalho e de muitas conversas para os expositores e visitantes, integrantes de uma cadeia que movimenta cerca de mil empresas. O grande fluxo de pessoas mostrava interesse em conhecer mais das soluções e das novas plataformas existentes ou que foram lançadas no evento, como a EP3 da Wobben/Enercon e a turbina de 4,2 MW da Vestas, além da solução Wise da GE. Esta última comemorou o volume acima de 5 GW em capacidade instalada em projetos eólicos no país. De acordo com a líder de Marketing e Produtos da GE Wind, Rosana Santos, outros 600 MW entrarão em operação até o final de setembro em mais três projetos. A projeção da GE é encerra 2017 com 2.700 turbinas em operação.

A impressão, para dos muitos participantes neste ano, era a de que o movimento entre as dezenas de expositores estava mais expressivo que nos anos anteriores. Empresas geradoras e potenciais empreendedores buscavam informações, e em alguns casos, iniciavam conversas para futuras parcerias visando a retomada dos leilões. O secretário-executivo do MME, Paulo Pedrosa, afirmou ter a convicção de que haverá disputas nos certames agendados para 18 e 20 de dezembro, além de margem de escoamento por conta da cassação da outorga de uma parcela ainda indefinida de até 4 GW em projetos que foram licitados em leilões no passado, mas que não saíram do papel nem participaram da descontratação ocorrido no último mês de agosto.

As projeções destacando a importância da eólica no atendimento elétrico brasileiro reforçam os investimentos esperados para as próximas décadas. Cálculos da Bloomberg New Energy Finance estimam que, em 2040, a eólica terá uma fatia de 12% dos 338 GW projetados de capacidade de geração no país. “Estamos começando a ver o que é uma vida sem fóssil, algo que só irá se intensificar daqui para frente”, classificou Morten Dyrholm, presidente do conselho do GWEC. A forte presença de público e de empresas no Brazil Windpower 2017 deixaram como saldo a sensação de que os bons ventos que sopraram para a eólica no Brasil desde 2009, quando o primeiro leilão para a fonte foi realizado, foram retomados. A certeza virá em dezembro.

Fonte: Canal Energia | Oldon Machado

Colaboraram Mauricio Godoi e Pedro Aurélio Teixeira

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