Fortaleza tem projeto para dessalinizar água do mar

Plano é produzir mil litros por segundo até 2020; capital entra no sexto ano de seca

A dessalinização da água do mar para fins potáveis, alternativa usada por países sob estresse hídrico como Israel e Austrália, começa a ser considerada para regiões metropolitanas brasileiras.

Fortaleza é a primeira capital com um projeto para produzir até mil litros de água por segundo por meio de dessalinização até 2020, o que ajudaria a dar sobrevida ao açude Castanhão, que abastece a Grande Fortaleza e está com sua capacidade abaixo de 4%.

O projeto deverá ser uma PPP —parceria público-privada— onde a empresa escolhida para construir e operar a planta terá a concessão do serviço por até 30 anos, prazo que ainda está sendo definido pelo governo do Ceará.

Em outubro de 2017, a Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) recebeu as propostas de manifestação de interesse das empresas para realização dos estudos sobre a planta de dessalinização.

Duas companhias estrangeiras foram escolhidas, a GS Inima Brasil, holding espanhola com acionistas sul-coreanos, e a também espanhola Acciona Água S/A.

Cada uma terá de apresentar, até o mês de maio, 15 estudos sobre a planta de dessalinização, com análises que vão de custos e tecnologias a serem empregadas a estudos de impacto ambiental.

A partir de maio, o governo terá dois meses para avaliar os estudos e abrirá edital para o recebimento das propostas, dentro dos critérios que serão especificados.

A empresa ficará responsável por investimento, construção e operação da planta de dessalinização. Os custos do projeto só serão divulgados após maio, mas estimativas apontam que o investimento necessário será da ordem de R$ 500 milhões.

Fortaleza entrou no sexto ano consecutivo de seca, e nos últimos dois anos o governo do estado passou a considerar alternativas de abastecimento de água para a região metropolitana.

Operando na capacidade esperada, de mil litros por segundo, a unidade de dessalinização acrescentaria 12% na oferta de água da Grande Fortaleza, o que seria equivalente ao abastecimento de 720 mil pessoas.

Hoje a capital cearense e outros cinco municípios da região metropolitana são abastecidos por duas estações de tratamento de água, que produzem até 15 mil litros por segundo.

A preocupação do governo é que até 2050, a demanda supere a produção
atual.

“A planta de dessalinização vai trazer um incremento para o abastecimento, mas não dá segurança completa. Vamos precisar de outras fontes, como o reúso de água na indústria” afirma Silvano Porto, gerente de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará).

Ele estima que será possível produzir mais mil litros por segundo de água de reúso para as indústrias e o porto do Pecém, a partir do tratamento do esgoto da região metropolitana.

A Cagece estuda um modelo semelhante ao adotado no Aquapolo, na Grande São Paulo, que produz cerca de 500 litros por segundo para o Polo Petroquímico de Mauá.

O modelo de PPP para o abastecimento de água, no entanto, enfrenta críticas no Ceará por parte de grupos que entendem a medida como uma forma de privatização dos recursos hídricos.

“Não somos contra usar a tecnologia de dessalinização, mas isso precisa ser feito e operado pelo Estado, para o povo. A água não pode servir para dar lucro a empresas privadas”, afirma Josivaldo de Oliveira, da coordenação nacional do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).

Para Porto, da Cagece, essas críticas não procedem, pois no modelo de PPP a empresa privada atuará como prestadora de serviços.

ÁGUA SALOBRA

A participação da iniciativa privada nos projetos de dessalinização de água já vem ocorrendo também no semiárido do Nordeste.

A americana Dow Water Solutions presta consultoria técnica para o projeto Água Doce, do governo federal, em parceria com os estados do Nordeste e Minas Gerais.

Já foram instalados 508 dessalinizadores para tratar a água salobra de poços, em comunidades rurais isoladas sem acesso à rede de água. O investimento no programa é de R$ 255 milhões.

“A dessalinização pode ser empregada tanto em sistemas localizados como em grandes áreas metropolitanas. No Brasil, já vem sendo utilizada pelo setor industrial, com sucesso”, diz Fábio de Carvalho, diretor da Dow.

A tecnologia de osmose reversa é uma das que mais crescem nos últimos 20 anos.

No semiárido, o programa nasce de um poço geralmente já utilizado pela comunidade, que recebe estudos de vazão e onde são identificados os níveis de salinidade.

Depois, é feita a capacitação dos moradores para que sejam os operadores do sistema de dessalinização. Já foram treinados 1.200 operadores, segundo a Secretaria de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

“A gestão comunitária é um modelo que tem funcionado, pois possibilita que os moradores gerenciem as unidades, dando acesso à água potável em regiões onde ele é muito precário”, diz Ranielle Linhares, coordenador do programa Água Doce no Rio Grande do Norte, que conta com 68 sistemas instalados e mais 35 em licitação.

No município de João Câmara, a cerca de 70 quilômetros de Natal, o governo do estado instalou um dessalinizador movido a energia solar, para reduzir os custos com energia elétrica gasta no bombeamento da água.

O equipamento permite o abastecimento de água para 65 famílias da comunidade rural Maria da Paz.

Fonte: Folha de São Paulo | Andrea Vialli

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