‘Eólicas’ esperam leilões para investir R$ 20 bilhões no país

Yuno Silva | Tribuna do Norte
Repórter

A crise hídrica que reduz o potencial de geração energética pelas hidrelétrica, e o alto custo das fontes termelétricas, pavimentam o avanço das energias renováveis no mercado – sobretudo a eólica. Mais barata e limpa que as demais, a tendência é que a eletricidade produzida pela força dos ventos ganhe cada vez mais destaque na base da matriz energética do País: o Brasil já é o quinto na lista dos que mais investem nessa tecnologia no mundo, e a tendência é de crescimento. “A geração eólica acumula um crescimento virtuoso nesses últimos sete anos, hoje é a nossa segunda principal fonte de energia e a mais barata”, garante Elbia Gannoum, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Elbia esteve presente na abertura do 9º Fórum Nacional Eólico, realizado em Natal dias 27 e 28 de junho, e reforça: “Queremos novos leilões (para compra de energia), temos recursos e investidores. O setor não está vendendo, está oferecendo. Acredito que a eólica é uma das chaves para a retomada do crescimento econômico do País”. Em 2016, os leilões foram suspensos devido queda na demanda por energia, motivada pela desaceleração do consumo.

A presidente executiva da ABEEólica informou que há R$ 20 bilhões “já dentro do Brasil” aguardando o Governo Federal promover leilões para serem investidos. Os contratos firmados tem validade de 20 anos.

O otimismo diante do potencial do setor, e o tom de cobrança por novos leilões de Elbia Gannoum, chancelado pelos representantes dos sete estados que participaram do evento, resumem os principais painéis que ilustraram o Fórum.

Organizado pelo Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), a edição 2017 do Fórum Nacional apresentou um panorama atualizado da situação das eólicas, e também lançou foco sobre desafios ambientais e sociais, fusões e aquisições no setor já considerando o fator China dentro do contexto de mercado, mais capacitação, inovação e tecnologia.

“A tônica dessa edição foi a retomada dos leilões, o discurso de todos que participaram foram uníssonos em trabalhar para convencer o Governo Federal de que é preciso manter um calendário regular”, acrescentou Jean-Paul Prates, diretor geral do Cerne.

O presidente da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), Sinval Zaidan Gama, antecipa que o Governo Federal “está discutindo o momento mais adequado para abrir novos leilões. Acredito que no curto prazo devem resolver essa equação”.

Gama explicou que os leilões do ano passado foram adiados “por que alguém acha que está sobrando energia, e não faz sentido contratar energia”, e informa que a bandeira vermelha que sobretaxa a conta de luz do consumidor final é motivada “pelo custo elevado da geração nas fontes disponíveis”.

Exportador de energia
No topo da lista nacional como o maior produtor de energia eólica, com geração média efetiva de 1,6 gigawatts (GW) e capacidade de potência instalada de 3,4 GW, o Rio Grande do Norte possui atualmente 125 parques eólicos instalados e operando em 18 municípios. Especialistas apontam que apenas um terço do potencial eólico foi explorado até o momento no Estado, que até 2003 estava na estaca zero no tocante a produção energética.

Desde 2010 o RN é autossuficiente em geração de energia, somando eólica com termelétricas e biomassa, e em 2015 tornou-se autossuficiente em geração eólica – atualmente produz o dobro do que consume (média de 800 megawatts).

De acordo com projeções do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia, a expectativa é que o RN atinja a marca de 5 gigawatts (GW) de capacidade instalada de energia eólica nos próximos quatro anos, abaixo da Bahia que deverá alcançar a marca de 5,4 GW instalados no período. “A tendência natural era a Bahia ultrapassar o RN, devido a infraestrutura (estradas e portos)”, avaliou    João Agra Neto, coordenador de dados e estetística setoriais do Cerne.

Agra ressalta que se o Estado fosse considerado um País, comparando a capacidade instalada de energia eólica, estaria em 19º lugar no mundo – acima de países como Japão, Coréia do Sul, Bélgica, África do Sul e Chile.

‘Descontratações servirão de motor para a atividade’

O crescimento do setor eólico no Rio Grande do Norte sofreu uma pequena quebra no ritmo logo após 2011 e 2012, quando a Secretaria Estadual de Energia e Assuntos Internacionais foi extinta. Para Jean-Paul Prates, que na época era titular da pasta e hoje ocupa o posto de diretor geral do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), “o Governo do RN deu uma cochilada. Não sei dizer se houve um desvio no foco de interesse, mas tivemos um pequeno atraso e o Estado deu uma patinada no tema – tanto é que também refletiu no atraso da conclusão das linhas de transmissão, não foi o único fator mas contribuiu”.

Sobre a intenção do Governo Federal em realizar os chamados leilões de descontratação, iniciativa que deve trazer nova dinâmica ao segmento, Prates acredita que será positivo para o mercado. “As descontratações servirão de motor para todo o resto da cadeia produtiva se movimentar, e devem ser encaradas como uma limpeza: contratos que não avançaram saem de cena e cedem a vaga para novos investidores. É um ciclo, de tempos em tempos elas (as descontratações) precisam ser feitas. O importante é liberar a cota, é melhor tomar providências antes que o contrato gere multa”, aposta.

Entre os principais investidores estão grupos brasileiros, fundos norte-americanos e europeus. A novidade desse mercado são os chineses, que vêm adquirindo o controle acionário de várias empresas de energia ao redor do mundo.

Outro motor que impulsiona o segmento são os financiamentos públicos para instalação de novos parques. Boa parte dos investimentos em geração eólica no Brasil contam com financiamento do BNDES, onde apesar das condições terem mudado, algo compreensível na opinião de Prates: “O banco entendeu que a indústria eólica amadureceu, passou de experimental para pioneira, ficou mais competitiva, e as taxas estão mais próximas do restante do mercado. Mesmo assim ainda há boas condições de financiamento”.

O diretor geral do Cerne disse que o RN “tem o dever de se antecipar nas decisões para não perder terreno”. O gestor também citou a repotencialização, com a troca das turbinas atuais, cuja geração média é de 1,2 MW, por equipamentos mais potentes que podem chegar a 2 MW e 3 MW. Já entre as metas para 2018, ele antecipou que irá ressaltar o potencial offshore (no mar) das eólicas.

No tocante aos conflitos socioambientais, causados pela instalação de parques eólicos, o economista Fábio Fonseca Figueiredo, professor do Departamento de Gestão de Políticas Públicas da UFRN, diz que “o Estado deve ser o grande mediador entre esses dois atores sociais. É preciso esclarecer à população o que são as eólicas, como investimento econômico e como possibilidade de geração de emprego e renda, que tipo de emprego e renda que se gera, e qual o período dessa geração de emprego e renda”.

Bate Papo
Juarez Castrillon Lopes – Assessor de Diretoria de Estudos de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

O engenheiro elétrico Juarez Castrillon Lopes é um entusiasta da área de energias renováveis. Representante da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia, no 9º Fórum Nacional Eólico realizado em Natal dias 27 e 28, Castrillon acredita que o setor ainda tem muito para crescer no Brasil. Envolvido há uma década com energia eólica, ele garante que o Governo Federal está ciente da necessidade de realizar novos leilões para contratar energia, e acredita que a eletricidade gerada pela força dos ventos deverá ter cada vez mais destaque na base da matriz energética do País.

Por que demorou tanto para se iniciar a geração de energia eólica no Brasil?
Essa demora não foi só no Brasil. A tecnologia de geração eólica surgiu muito perto da geração hidrelétrica, e a questão principal que causou esse ‘delay’ – até início dos anos 1990 – diz respeito à viabilidade do negócio. Mesmo na Alemanha, as eólicas só começaram a se viabilizar economicamente entre 1994 e 1995, logo em seguida vimos o boom no mundo inteiro. Esse crescimento só foi possível quando se pensou em regras mais interessantes de remuneração, de financiamento das usinas e do advento de contratos de longo prazo. Se formos pensar, não foi tão devagar assim.

Considerando o potencial de geração de energia renovável (eólica e solar), é possível vislumbrar uma alteração gradativa da matriz energética no Brasil?
Com certeza vamos ver essa mudança, aposto muito no crescimento da eólica, que com relação a geração solar tem a grande vantagem do aerogerador não ocupar tanto espaço: pode plantar, criar cabrito e gado na mesma área; mas se botar painéis fotovoltaicos, inviabiliza essas possibilidades. Na Alemanha vemos muitos parques eólicos com plantação em volta. Acho a geração eólica ótima, e no caso do Brasil especificamente no Nordeste tem um potencial enorme.

O consumidor final já percebe benefícios com a geração de energia eólica?
Sim, desde o primeiro leilão em 2009. O crescimento do custo para produção de energia, está em um ritmo muito menor do que se estivéssemos utilizando fontes térmicas como alternativa à hidrelétrica. Esse fator reflete na conta mensal, que estaria bem mais alta se não tivesse tido investimentos na eólica.

Mas e o que justifica a bandeira vermelha, que encarecem as contas de luz?
É justificada pela existência de fontes mais onerosas como as termoelétricas. Chega a ser contraditório: as eólicas acabam não entrando na rede, pois o espaço já está ocupado por uma fonte mais cara de geração de energia. Temos que pensar agora como será o futuro do atendimento elétrico no Nordeste: vamos ficar no modelo antigo das usinas à gás, ou vamos pensar em outras soluções como eólica e solar. A preocupação atual do Ministério de Minas Energia e da EPE é definir qual a melhor alternativa para aproveitar esse recurso energético que está aí de graça, em vez de sair para aventuras como as termoelétricas.

Os leilões de descontratação significam retração?
Não, de jeito nenhum. Nos últimos leilões entraram vários parques solares, projetos que acabaram inviabilizados devido a disparada no preço do dólar – a eólica, mais consolidada no mercado, conseguiu se manter dentro de uma faixa aceitável de preço. Ao mesmo tempo tivemos uma queda na demanda por energia elétrica, as concessionárias ficaram com contratos sobrando. E o que o Governo fez? Um encontro de contas. Já tiveram outros momentos como esse no setor, que colocou de um lado quem comprou demais e do outro quem queria deixar de vender. A descontratação tira de cena os projetos que estavam com problema, e verifica se está faltando ou sobrando contratos para aquisição de energia; quando essa conta fechar o Ministério de Minas e Energia decide quando abre novos leilões.

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