Foto: Wobben Windpower

Renováveis: “Capacidade de gerar emprego existe, mas é preciso qualificação”

O ano de 2016 não foi fácil para o setor energético brasileiro. Com a crise econômica, diminuiu também a demanda por energia elétrica como um todo. Ao mesmo tempo, com uma seca que há cinco anos atinge o Nordeste, os níveis dos reservatórios que enchem as usinas hidrelétricas, que constituem 61,2% da matriz energética brasileira de acordo com a Associação Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), também geraram sérias preocupações para o setor. Nas energias renováveis, não foi mais simples: ao invés dos esperados leilões de contratação de energia, o Governo Federal lançou um leilão de “descontratação”, que deverá ser realizado em agosto deste ano, a fim de cancelar projetos de usinas eólicas, solares e hídricas contratadas em anos anteriores.

Apesar do quadro adverso, apenas em 2016, foram instaladas 81 novas usinas eólicas, sendo 25 delas no Rio Grande do Norte, maior produtor da fonte de energia no Brasil. Com 10,75GW de potência instalada nacionalmente, a potência de energia eólica apresentou crescimento de 23,06% em relação a 2015. Mais do que gerar uma nova matriz de energia renovável no país, o setor de energia eólica, atualmente com 430 parques espalhados em território nacional, gerou mais de 30 mil postos de trabalho em 2016, com um investimento no setor que atingiu a casa dos R$ 5,4 bilhões, recolocando o país na lista dos 10 que mais investem em energias renováveis no mundo, na 7ª posição. Os números refletem um setor que, mesmo com a falta de leilões de energia em 2016, conseguiu conquistar 7% da matriz energética brasileira em pouco mais de 20 anos e que tem buscado atrair investidores e absorver experiências de países que já utilizam a eólica como uma de suas principais fontes de energia, como a Alemanha, que sozinha produz um terço da energia eólica no mundo.

Os desafios são muitos. As empresas têm, por exemplo, se deparado com dificuldades em relação a mão de obra especializada. Sobre esse e outros aspectos relacionados ao setor a TRIBUNA DO NORTE entrevistou nesta semana João Paulo Cavalcanti,  gerente de serviços e instalação da Wobben Windpower, empresa alemã que atua em território brasileiro há mais de 20 anos na fabricação de aerogeradores e que lida diretamente com a questão da produção, instalação e manutenção dos componentes das turbinas eólicas. João Paulo esteve em Natal para o “V German-Brazilian Renewable Energy Business Conference”, que aconteceu na última  terça-feira (30) no CTGAS-ER. Na entrevista, ele falou sobre os principais desafios dos parques eólicos em relação a cadeia de valor e mão de obra qualificada, tema que debateu no encontro. Confira:

Com a crise econômica, muitos especialistas têm apontado problemas em relação ao financiamento para novos projetos de parques. Mesmo assim o Brasil continua sendo um país atrativo para os investidores da energia eólica?

Com certeza. O vento no Brasil é um vento muito melhor para a produção de energia eólica do que no resto do mundo. Isso sozinho já é um bom motivo para gerar um bom investimento, mesmo com a crise econômica e a queda da demanda de energia como um todo. De qualquer forma, quando a gente fala em novos negócios, pensamos em dois momentos: o momento da venda dos equipamentos, para a parte da produção e instalação dos nossos projetos e, fora isso, tem o fato de que todo projeto que a gente monta temos que mantê-lo operando por 20 anos, então independente de novos negócios durante um ou dois anos, desses altos e baixos que nós vemos no mercado, a gente tem toda uma estrutura de manutenção de operação que permanece ativa e é muito importante, mantida independente do processo de venda. Uma das nossas estratégias foi criar fábricas exclusivamente para exportação, no mercado da América Latina. A partir do Brasil montamos uma estrutura que permite que nós façamos a produção para suprir os mercados do Uruguai, Chile, Argentina. Essa foi uma estratégia que encontramos para contornar essa situação da instabilidade econômica, por exemplo.

Uma das principais funções, como você mesmo disse, é realizar a manutenção e a instalação dos geradores. Isso exige qualificação da mão de obra. Vocês têm dificuldade em encontrar essa mão de obra qualificada no Brasil?

Sim, a gente vem sofrendo com isso há muitos anos. A Wobben já está instalada no Brasil há 25 anos. Ela começou apenas com a exportação. No início não tinha nada, nós tivemos que desenvolver toda a nossa estrutura de treinamento e formação do pessoal internamente. Hoje, como estamos mais próximos dos grandes centros como Natal, Fortaleza e Porto Alegre, nós já temos uma certa facilidade, porque houve um movimento nos últimos anos de buscar formar profissionais para essa área, mas ainda assim nós, enquanto fabricantes e responsáveis pela manutenção precisamos suprir uma grande parte da qualificação. Hoje, 50% já vem formado das escolas, dos cursos, mas outros 50% nós ainda temos que treinar e tentar suprir de alguma forma essa lacuna que é existente. A dificuldade, na verdade, está mais associada ao local.

Quando você fala que essa dificuldade está relacionada ao local, você se refere a esse distanciamento das capitais, onde normalmente os parques são instalados?
Dependendo do Estado, sim. Vou dar um exemplo: eu preciso agora para 2018 algo entorno de 200 pessoas para montar um projeto no sul da Bahia, e a cidade mais próxima, de 30 mil habitantes, não tem nem um caixa eletrônico, então dependendo do local, isso com certeza é um problema. Gera um problema de infraestrutura. Por mais que você consiga encontrar o local você tem a dificuldade de contratar a mão de obra especializada para este local. Mas como eu disse, isso varia de estado para estado. No Rio Grande do Norte isso já foi um problema maior, mas nos últimos anos deixou de ser um pouco mais, mas na Bahia essa dificuldade é maior, até porque a Bahia é bem maior em extensão, então a dificuldade e o tempo de distância de uma cidade para outra também é maior do que no RN, por exemplo, que é um estado menor e portanto mais fácil de circular por ele.

Como está a demanda de vocês para novos projetos em 2017? Há demandas já para 2018?
Nossa produção na Wobben está toda vendida até o final do ano que vem. Até o final de 2018, nós estamos em uma situação bem confortável, porque já estamos com todos os projetos vendidos e há novos projetos vindo. Nossa visão de longo prazo está voltada para desenvolver novos mercados justamente para não depender destas variações e instabilidades econômicas e políticas que estão ocorrendo no Brasil: muda uma administração e aí muda tudo. Hoje, até o fim de 2018, está confortável. A partir daí vamos buscar desenvolver novos negócios. A América Latina é um mercado muito rico para fontes renováveis de energia, como um todo. Gradativamente, vemos que elas vem ganhando espaço no mercado e na matriz energética dos países. O Brasil por exemplo tem um potencial gigantesco, tanto para a solar quanto para a eólica. Se houver de fato o compromisso em desenvolver a eólica, ela pode se tornar cada vez mais forte no mercado brasileiro.

Em termos de geração de empregos, quantas pessoas são necessárias para executar os serviços de produção e manutenção que vocês oferecem?

Bom, a Wobben hoje está com 1.700 funcionários, a maior parte deles nas fábricas, temos várias no Brasil. Na parte de instalação de novos projetos, nós temos cerca de 400 pessoas. Depois que você instala e que você mobiliza realmente uma grande quantidade  de pessoas para transporte, montagem e tudo isso, a parte da manutenção exige uma quantidade menor de mão de obra. Para a operação e manutenção, nós temos cerca de 150 pessoas, e mais ou menos 200 pessoas para a instalação em si, variando é claro de acordo com o tamanho da obra. É um setor que tem capacidade de gerar emprego mas que precisa de qualificação de mão de obra, se não de ensino superior, o que seria ideal, ao menos técnica, porque é um trabalho que exige certo conhecimento para ser executado da melhor forma possível.

Fonte: Tribuna do Norte | Mariana Ceci

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